sábado, 14 de fevereiro de 2009

Fui enganado. Fiquei a pensar.

1 Fui enganado. A boa vida?! ... estou há mais de uma semana enfiado em casa a trabalhar. Urbanismo já esta despachado e sou capaz de ter uma boa avaliação: missão cumprida. Projecto está-se a revelar bastante desafiante (p n dizer desesperante) porque, em vez de nos concentrarmos em fazer boa arquitectura, concentramo-nos, agora, numa boa apresentação. Nos dias que correm pode não ser tão descabido mas é sempre um desviar da atenção da aquilo que realmente importa para aquilo que realmente não importa.
2 Fui enganado. Há dois dias acordei doente. Pensava que tinha saúde de ferro mas levei um puxão de orelhas. "Trata bem de ti"
3 Fui enganado. Estava eu a fazer o meu cházinho (para tratar bem de mim) quando o chinês que vive comigo vai a cozinha e repara "queres mel para por no chá?". Boa, isto com mel é que vai ficar um mel... "sim, obrigado. tens?" aquele silêncio de 1 segundo pairou ate cair uma resposta "não, não tenho".

3 Fiquei a pensar. Muitas vezes damos ou usamos aquilo que não temos (e eu incluo-me nesse pacote). Não por mal mas porque apetece ou tem de ser. Oferecemos, possuidores de grande sapiência, receitas imediatas ou soluções para os problemas do mundo ou para a crise. Oferecemos, possuidores do bom cariz, boa vontade ou a salvação da humanidade. Oferecemos e usamos tudo, muitas vezes "nada" tendo, possuindo, antes, arrogância ou desprezo e falta de vontade ou leviandade. A verdade no meio da nossa confiança? Se não tenho "mel" não o vou sugerir, não vou iludir.
2 Fiquei a pensar. A humildade no meio destas ofertas todas? Ser humilde na minha condição e perceber os meus limites. Fazer-me o favor de ser honesto comigo e agasalhar-me.
1 Fiquei a pensar. Tento-me desviar do que não interessa e focar-me no realmente essencial. só o esforço (que não momentâneo) já é uma missão cumprida e em vez de ter uma "boa vida" tenho uma "vida boa".
Para mim a vida boa passa por me centrar no essencial. Vou tentando ser humilde e perceber que me transcende (maior) mas a única maneira de chegar mais perto é a transparência interior, que me faz querer melhorar.

Este post é uma leve referência aos acontecimentos do meu dia-a-dia que foram desencadeando os pensamentos. há muito mais por trás. Espero não estar a ser "óbvio de mais" mas para mim, com tudo o resto, não é. até já

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Jantar

Estou farto de jantar sozinho...
Estive o dia todo enfiado no quarto a trabalhar para projecto. Não me venderam Erasmus assim! lol Lembrei-me destas alturas em Portugal: há sempre a altura das refeições para trocar impressões com alguém e devolver um pouco de sanidade à cabeça. Resumindo "Estou a FRITAR a batata!!!". Acho que vou lá abaixo à caixa do correio ver se recebi mais uma carta do banco para... pronto... só para sair do quarto um bocado.
E estou farto de jantar sozinho...

até já

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Frankfurt e Darmstadt

O projecto de ir a Frankfurt e Darmstadt já existia há algum tempo mas foi de maneira relativamente inesperada que finalmente decidimos embarcar. 5ª num jantar-fora para quebrar a rotina decidimos no dia seguinte entrar no comboio das 18h19m em direcção a Darmstadt. O André já la viveu e não lhe faltavam amigos por lá para emprestar um tecto. A ideia era repetir o esquema de Munique e no sábado ir visitar Frankfurt deixando o domingo, com menos tempo, para Darmstadt. Já dentro do comboio um mau presságio que, contudo, não apoquentava (o entusiasmo era grande): chuva, chuva, chuva. Antes a neve mas as preces aos deuses não deram resultado. Curioso...
Ao aproximarmo-nos, diz quem já lá foi, deveria ser evidente o recorte dos edifícios mágicos no céu mas a única coisa que fomos vendo foi um pano cinzento. De quando em vez um rasgão soltava uma imagem de um gigante mas nada como nos contos, nada como dito.
Aterradados, já encharcados. Não havia folga no azar: era o fado do dia, do fim-de-semana. Comecei a procurar à minha volta o que de meu interesse mas foi complicado encontrar. Primeiro uma volta pelo centro histórico da cidade. Tipicamente alemão, sempre cuidado, amplo, as casas com estrutura de madeira à vista, a catedral neo-gótica completamente restaurada. Até aqui nada de novo mas agora acrescentemos uns dados: Arranha-Céus como pano de fundo! Nestas praças muito alemãs existe uma relação entre o antigo e o velho fora de serie. Parecem imagens trabalhadas no photoshop mas... não são! Não acreditaria se me contassem mas o contraste é tão grande que, por mais que uma pessoa vá preparado, é sempre uma surpresa.Depois de sairmos da parte original da cidade atacamos o centro recente. Tropeçar em edifícios cuja altura excede o limite do aceitável foi algo comum e eu, regalado estaria não fossem os tons cinza dos flashes. O fado continuava mas o excitamento superava a dificuldade e fomos palmilhando e descobrindo mais sedes de mais bancos mais que alemães.
Frankfurt não é uma cidade sempre fácil: com grandes confusões de zonas de comercio ou pedonais ou rodoviárias ou religiosas ou de restauração, por exemplo. Frankfurt não é sempre uma cidade bonita: é preciso encontrar os sítios de eleição e nem tudo o que é espampanante é bom mas foi uma fácil e boa visita e já posso dizer que vi um dos edifícios mais respeitáveis do mundo, pelo conteúdo (sede do ComerzBank Alemão) e pela forma (270m de altura projectados pelo Sir Norman Foster).
Voltámos para Darmstadt, encharcados, estoirados tanto física como psicologicamente (um dia a andar à chuva não é fácil) mas com umas boas imagens na cabeça! Quanto a esta cidade, não posso fazer muitos comentários uma vez que não consegui ver tudo (apesar de não ser muito) e do pouco que vi é melhor não comentar. Parece (e se calhar até é) um subúrbio de um arrabalde de uma cidade satélite.

Frankfurt: é de lá dar um salto para ver
Next stop (se tudo correr bem): Colónia
até já

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Confissões ou Confusões

Toda esta semana e principalmente o dia de hoje puseram-me a pensar no que já não pensava desde o inicio desta aventura por terras germânicas.
Tive entrega de manhã e não correu maravilhosamente bem. Sem esperar, fui a casa apanhar o computador para ir fazer um trabalho de grupo. Resultados limitados também. Esqueci-me de almoçar. Agora que o dia acabou vejo que foi um paralelo destes que passaram: sem tempo para parar e reparar, saborear. Sem exercício para ser excelente ou ultra producente vi a estaleca perdida. Isto levou-me a pensar no investimento que é eu estar aqui. Não só o monetário, que é evidentemente grande, mas principalmente o pessoal. O investimento de quem está em casa, disponível para me ver longe e a alegria que tem em perceber a minha evolução (calculo). Sinto que tenho que dar uma resposta em agradecimento e esta passa quase obrigatóriamente por resultados académicos mas que aqui escasseiam. Sinto-me mudo. Os chorudos 30 créditos apensas seriam um grito formal que esconderiam uma história por trás mas os pobres 21 créditos que vou fazer não sao dignos de dar voz a tudo por aqui. O investimento foi grande mas o resultado, apesar de não obviamente visível, também.
Sabe bem parar, ler qualquer coisa, escrever o que confusamente vem à cabeça só por perceber que se tem cabeça.
até já

Universalidades arquitectonicas

Para equilibrar da óptima semana que tive em Berlim, esta foi bastante agressiva. Não parei um segundo com trabalhos, como já tinha escrito. Hoje tive a 3ª e ultima entrega intermédia de projecto (a próxima é a derradeira) e tive um déjà vu que durou uns 30 minutos.
Chegava a minha hora, a hora de apresentar e, depois de uns meses na Alemanha, já não devia constituir desafio expor o meu projecto, de sempre, nesta língua, de sempre. Mas hoje estava ansioso. Comecei e com mais engasgões que o habitual e socorri-me do ingles. Para ajudar, o professor nem olhava para onde eu ia apontando e tentando explicar (1). Hostilmente ía soltando umas notas que eu não percebia mas tambem não se importava com isso (2). Refilou com o pequeno tamanho das casas de banho e com a integração da estrutura no projecto (3). Mandou-me ir estudar o Mies (como se nunca tivesse visto) e trabalhar afincadamente, pouco sorridente, como quem diz que tenho muito pela frente e que ainda não fiz nada (4). Por fim sugeriu-me, muito obrigado, que a minha parede com pedra aparelhada (linda de caír p o lado, diga-se) fosse antes de um material que reflectisse a Alemanha. O argumento usado foi "Nos somos os melhores fabricantes de carros, de maquinas de lavar roupa e loiça. não somos amigos do ambiente!". Protanto, acho que vou fazer uma parede com volantes, pedais e detergente e tambores: apostar na reciclagem/reutilização para ajudar a tornar a Alemanha num país mais amigo do ambiente. Talvez depois venha a pedra. Resta fazer referência ao timming costume dos professores de arquitectura: na entrega passada já tinha, sem tirar nem por, muito do que foi criticado nesta (5). o problema é que a entrega final é daqui a 3 semanas, para mim.
5 pontos muito resumidos do que um professor de arquitectura é capaz de ser, universalmente. Quanto ao que um estudante de arquitectura pode ser não escrevo pois já me conhecem, sou o vulgar, aí e cá. até já

sábado, 31 de janeiro de 2009

Vida de Erasmus

A vida de erasmus não é apenas baseada em rosas. Também há entregas de trabalhos e um projecto para concluir. Como vou entregar este último uma semana antes dos outros, tenho que me apressar agora. E é agora que menos me apetece trabalhar. Falta menos de um mês para voltar para Portugal e estou a ficar com uns sentimentos confusos. Apetece-me voltar, por certas coisas, mas ja estou a ficar com saudades Estugarda, deste país, desta cultura. Já tenho saudades mas ainda ca estou. Já estou com a nostalgia de quem já partiu e revive. Agora é que tenho de trabalhar no duro, agora que me apetece espremer o que falta deste frio, da Koenigstrasse, da Theo Heuss, do Cubo, de Vaihingen, disto.
tenho que ir trabalhar. Há um projecto para fazer.
até já

Berlim

Foram 4 dias cheios de cultura, admiração, nostalgia. Parar seria perder e ninguém quer isso, muito menos com tanto para ganhar. Esgotante a nível físico mas revigorante para a cabeça. Uns dias vitoriosos. Rendi-me.
Comecei com um passeio guiado pelos arredores do centro. Perceber a razão de determinados edifícios, perceber também o que se passa a nível emocional dos berlinenses que no meio de tantos anos de vida, sempre foram o ponto de rendevouz do mundo, normalmente por razoes não boas, quer fossem quentes ou frias. A cruz deles é a história e vivem num sentimento de culpa muito oficial com uma vontade de apagar todas as marcas antigas: encontram-se pedidos de perdão à Humanidade em muitas esquinas (p. ex. Museu dos Judeus, Reichtag, etc.) mas existe a vontade de apagar todos os vazios não só por ser espaço desperdiçado mas porque faz lembrar o sofrimento das guerras várias. Um dos espaços abandonados mais agressivos que encontrei, está mesmo perto do Memorial do Judeu: o sitio onde Hitler morreu. Este vazio é usado como parque de estacionamento enlameado, na tentativa de, calculo eu, fazer tábua rasa através do uso quotidiano para algo menor. Existe um bunker por baixo, existe O bunker por baixo, destruído, tal como muito.
Depois da história, segue-se a arquitectura e a descoberta de mais interesses menos turísticos da cidade. Ir a SchlesichesTor dizer Bonjour Tristesse ao edifício do Siza. Uma linha tão suave que emociona, chegando mesmo, aliando à cor, a trazer tristeza. Seguir para o agressivo Museu do Judeu do Libskind: uma aparência imponente, cheia de “qualidades” mas entrado fica o vácuo, a desilusão. É vendido como singular, claramente um preço exagerado: tristemente pobre. Para levantar a moral, tinha em mente ir à NeuenNationalgalerie da referência Van der Rohe mas para lá chegar passei por PotsdamerPlatz: a exuberância e algum exaltamento na construção fizeram daquele espaço encolhido uma festa de sabores. Contudo, toda a gente sabe que há certos sabores que não ficam bem juntos. Extasiante mas cansativíssimo. Ainda com a galeria do Mies em mente, passei pela Opera do Scharoun, um perfeito exemplo de harmonia com formas e cores estranhas. Consegui, por fim, chegar à NeuenNationalgalerie. Posso ser suspeito pois o arquitecto em questão é uma das minhas principais referências mas se há pouco falávamos de emoções, sabores e harmonias, aqui falamos de utopia! A forma simples, a construção básica, os materiais de sempre, a linguagem intemporal, um resultado esmagador. Cada vez mais me rendo à delicadeza e à força de cada gesto.
Nas aulas de história de arquitectura aprendemos sobre determinados autores e suas obras. Discutimos sobre elas, também, nas aulas de projecto. São edifícios inacessíveis de arquitectos elevados a sobre-humanos. Ia à procura disto, de encontrar mais especiarias que contribuíssem. Começámos por encontrar a fábrica da AEG de Peter Behrens. Foi um dos momentos altos do dia: andávamos à procura e de repente tropeçamos no próprio. Não é nada como nas fotografias das aulas, é muito mais imponente, mais presente mas não é convencido. Depois de contemplações atacamos a Unidade de Habitação. A caminho passamos pelo Estádio Olímpico. De construção Nazi para os jogos olímpicos, o estádio ainda hoje em dia é usado e apresenta-se firme, bem forte. Com a obra de Corbusier ao longe, fomos cheios de vontade para, por fim, perceber a singularidade daqueles edifícios. Entramos, subimos as escadas e fomo-nos apropriando de cada pormenor. Grande cuidado com os puxadores, caixas de correio, luzes, campainhas. Tudo até ao ínfimo pormenor. Depois de insistirmos com algumas pessoas, lá conseguimos entrar em casa de um senhor, também arquitecto, que percebeu a nossa ânsia. A proporção das células de habitação é tão boa que com um espaço tão reduzido, se vive na maior das boas disposições. A única reticência vai para os corredores interiores. Estes aliados às paredes brancas e aos linóleos cinzentos fazem lembrar os hospitais, portanto não muito confortáveis. Para concluir o dia ainda investimos em visitar a biblioteca do Sir Norman Foster mas quando lá chegamos, nem uma luz acesa. Tinha fechado meia hora antes.

Quase no fim ainda houve tempo para investigar o Niemeyer, o Gropius, o Aalto em mais um bairro modernista. De indispensável, faltava-me conhecer a cultura underground. Descobrir a feira do muro, o Tacheles. O sítio do contrabando e o sítio da arte ilegal. Conclui com um belíssimo passeio por uns bairros berlinenses e com uma óptima conversa. Muito obrigado Joana pela estadia e pela companhia!


Berlim? Para voltar!
Next Stop: Frankfurt
Até já